Sergio Halaban e André Zatz
Entrevista
Em caráter exclusivo, inédito e inusitado, a equipe do site Ludomania esteve cara a cara com Sergio Halaban e André Zatz para falar de jogos.

Ludomania: Há alguns anos fizemos entrevistas
com alguns autores de jogos que deram um panorama do cenário nacional na época.
Como vocês vêem esse cenário hoje, em 2004?
Em relação aos autores, alguns saem de cena, outros aparecem. Mário Seabra continuou afastado da criação, assim como seu filho Carlos. Também não ouvimos mais falar de criações de Fernando Fonseca, Luiz Gonzaga ou Otávio Lacerda. Os autores que continuam na ativa são Luiz Dal Monte e Milton Célio. Além de nós três, que na época estávamos começando e hoje podemos dizer que nos firmamos como autores profissionais, trabalhando não apenas a partir de idéias nossas mas também a partir de encomendas e com prazos apertados. Há ainda um outro trio: Gibrin, Miyaji e Onça, que parece estar se firmando. Por enquanto só publicaram alguns jogos para crianças pequenas, mas tiveram um protótipo premiado num concurso internacional, o que é muito positivo para a criação nacional.
Com
relação aos fabricantes, a Grow voltou a lançar alguns títulos de estratégia
para adultos, como a nova versão do Interpol, o Rummikub, o Othello e o próprio
Batalhas Medievais. Na época em que desenvolvemos o Corrida Presidencial, esse
espaço era ocupado pela linha Game Office da Toyster, que hoje opta por lançar
jogos para idades mais baixas, vindos dos Estados Unidos, com honrosa exceção
para o Grande Chefão. A Estrela continua com os seus clássicos e praticamente
sem novos lançamentos. A Glasslite andou se aventurando a lançar alguns jogos,
mas acho que também já desistiu.
Falando
agora dos jogadores, vemos um renascimento do hábito de jogar entre adultos,
pelo menos num nicho restrito. Hoje existe uma comunidade de gamers no Brasil.
São algumas centenas de pessoas que se reúnem regularmente para jogar jogos,
principalmente jogos importados da Europa. Isso se deve em parte à grande evolução
dos jogos europeus nos últimos anos e aos esforços de alguns entusiastas do
hobby que insistem em divulgá-lo como podem. Nesses últimos anos vimos o nascimento
das FPTs, de grupos de jogos em todo o país e de grupos de discussão via internet.
Um sintoma desse interesse crescente é a decisão da Devir, tradicional loja
de RPGs, de importar versões em português de alguns dos best-sellers europeus:
Os Descobridores de Catan e Carcassone.
Sergio: Acho que o André já falou
tudo. Não tenho muito a acrescentar. Apenas lamentar que a linha Game Office
da Toyster tenha perdido um pouco sua característica inicial. Pessoalmente vejo
a participação dessa linha no mercado da seguinte maneira: os bons fabricantes
de jogos (Grow, Estrela e Toyster) estão direcionados para o grande público,
o que não poderia ser diferente. E um nicho de mercado (jogos para adultos)
fica com pouca oferta. A Devir, como o André já disse, parece querer experimentar,
mas é a linha Game Office da Toyster que deveria explorar esse mercado. Pelo
menos é assim que eu sempre entendi a sua proposta. Não sei dizer o que aconteceu
mas o que é oferecido por essa linha hoje está muito longe de sua proposta inicial,
o que é uma pena.
Ludomania: Como foi o início, a criação
do Corrida Presidencial e o caminho até a publicação?
Como todo primeiro jogo, este foi muito influenciado por outros jogos que estávamos jogando naquela época e dos quais gostávamos bastante.
A primeira idéia eu tive enquanto estava preso em um engarrafamento e quando cheguei em casa anotei tudo. Resolvemos (Sílvia e eu) fazer uma brincadeira com o André e a Camila e redigimos a idéia de forma que parecesse um arquivo baixado da Internet. No encontro seguinte, dissemos para o André e a Camila que alguém já tinha tido a mesma idéia de jogo que nós e mais, já tinha realizado. Lemos a descrição do jogo e eles gostaram e lamentaram. Por fim confessamos a verdade e esse foi o pontapé inicial.
A partir daí, houve muita pesquisa, discussão, alguns protótipos e vários playtests. O jogo foi sendo enxugado e vários procedimentos e regras modificados.
Com o protótipo final pronto, testado e aprovado (por nós) entramos em contato com os fabricantes para oferecer o jogo. Inicialmente apresentamos para a Grow que depois de alguns meses recusou o jogo. Eles gostaram mas não viam lugar na linha para um jogo como esse. Aí por sugestão do Luiz Dal Monte apresentamos o jogo para a Toyster, que gostou de cara e decidiu publicar.
Ludomania: Normalmente, como é o processo
de criação de um jogo?
Ludomania: Como vocês dividem tarefas?
André: Em geral no início um dos
dois avança um pouco na idéia até apresentar para o outro. Quando decidimos
levar o jogo adiante, sentamos juntos para definir as regras. Na hora do desenvolvimento,
o Sergio faz toda a parte do design, até confecção do protótipo. Eu faço as
contas necessárias para o dimensionamento de componentes e sou eu também que
redijo as regras, com a ajuda do Sergio. Fazemos os primeiros testes em dois
e vamos discutindo alterações necessárias. Na hora de testar com outras pessoas,
idealmente fazemos isso juntos, mas o Sergio tem mais compromissos familiares
e esses testes ocorrem muitas vezes em horários não-comerciais. Então às vezes
eu vou sozinho. Nos primeiros jogos, a Sílvia participava mais. Hoje menos,
mas ela ainda participa de testes e dá sugestões.
Ludomania: Quantos jogos vocês já criaram?
Quantos já publicaram?
Ludomania: O que vocês jogam? O que
gostam de jogar?
André: Gosto de jogar muitos tipos
de jogos. O que mais jogo atualmente são jogos europeus, geralmente fabricados
na Alemanha. É o que há de melhor sendo editado. Se fosse escolher um jogo como
preferido, escolheria um tradicional, o Go, talvez o jogo mais antigo do mundo.
Sergio: Tento jogar um pouco de tudo:
jogos de cartas, jogos de destreza, de estratégia, party games... Com relação
ao que eu gosto de jogar, é difícil responder por que cada jogo tem o seu atrativo.
É como dizer que (em termos de cinema) eu prefiro assistir a uma comédia romântica
mais do que um policial. Se o filme for bom, vou curtir qualquer um. Assim é
com os jogos, se o jogo for bom, vou ter prazer em jogar. Tenho algumas boas
lembranças de infância e juventude jogando Botão e Othello (que na época se
chamava Preto no Branco) e uma corrida de carrinhos que eu disputava com meus
irmãos em que a pista era desenhada com bloquinhos de madeira (tipo Pequeno
Engenheiro) e os carros eram a nossa coleção de mach box.
Sergio: Essa pergunta é muito genérica,
pois jogos constituem um universo muito amplo. Vou tentar responder em relação
a uma parcela desse universo que é a que mais me interessa como autor e jogador,
que são os jogos modernos
de segunda geração para adolescentes e adultos. Sou muito
otimista em relação ao futuro desses jogos no Brasil. Fora do Brasil, esses
jogos têm um status de hobbie, ou seja, quem curte jogá-los o faz com regularidade,
estuda e conhece o assunto, consome, etc. Hoje já existe uma comunidade, ainda
relativamente pequena, de curtidores desse tipo de jogo aqui no Brasil. Como
toda comunidade pequena, a nossa é bem ativa e com a Internet, as festas (FPT,
UHGA e outras), os grupos de jogadores que vão se formando, os novos autores,
etc. essa comunidade vai crescer cada vez mais e fatalmente vai constituir um
nicho de mercado.
É
uma bola de neve que está apenas começando a se formar. Com que velocidade ela
vai crescer e que tamanho vai atingir é impossível prever.